"Anseio por um caminho limpo onde, sem esquema ou armação qualquer, consiga encontrar uma forma de livrar-me da terrível solidão."

Esse trecho de "Voz do Oriente", do Brother Simion, tem um peso que a gente não espera de uma música. Não é só uma letra bonita: é um grito que muita gente carrega por dentro sem nunca dizer em voz alta. A vontade de encontrar algo verdadeiro, sem jogadas, sem máscara, sem "armação". Um caminho limpo. E no fundo de tudo isso, a dor da solidão.

Vale prestar atenção num detalhe que passa batido. Ele fala em anseio por um caminho limpo. Anseio é mais do que querer. É uma sede, uma busca que vem de dentro, que não dá pra fingir que não existe. E caminho limpo significa sem atalhos forçados, sem tentar empurrar as coisas pela vida adiante. É curioso justamente porque, quando a gente para de tentar "esquematizar" tudo, é aí que as coisas costumam acontecer de verdade.

E é nesse ponto que entra Eclesiastes 3:1:

"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu."

A vida é feita de ciclos. Fases que começam, duram o que têm que durar e chegam ao fim. E a gente tem uma dificuldade enorme com isso, eu mesmo tenho, principalmente com a parte do fim. Queremos que as coisas durem para sempre, ou então queremos que a próxima fase comece antes de a atual ter se encerrado de verdade. Mas a real é que um ciclo precisa ser fechado para que outro se abra. Tem bagagem que precisa ficar no ponto de partida. Não dá pra carregar tudo de uma fase pra outra e esperar que a nova comece leve.

Lembra de "O Rei Leão"? Aquela abertura grandiosa, com o sol nascendo na savana e todos os animais se reunindo pra celebrar a chegada do novo filhote. Era O Ciclo da Vida. Não era um filme infantil falando de animais. Era um retrato de como a vida funciona: nasce, cresce, ocupa o seu lugar, e quando a hora chega, abre espaço pra que a próxima etapa aconteça. Mufasa ensina Simba que o ciclo não termina, ele se transforma. O que passou não desaparece; vira base para o que vem.

Pensa numa pessoa que já está adulta, vivendo a vida dela, com sua rotina, suas conquistas, seus caminhos. Por um tempo, aquele era o ciclo: se construir, se manter, se virar sozinho e aprender a andar com as próprias pernas. Ninguém pula essa etapa. Mas chega um momento em que aquilo já cumpriu o que tinha que cumprir. E aí nasce, devagarinho, um desejo diferente: de compartilhar, de formar família, de não seguir mais sozinho. Não é falta de amor-próprio. Não é desespero. É o sinal de que um ciclo novo está batendo à porta. Como na savana: o filhote que cresceu não pode continuar sendo filhote pra sempre. Chega a hora de ocupar outro lugar no ciclo.

Lá no começo de tudo, em Gênesis, Deus olhou para o homem e disse:

"Não é bom que o homem esteja só" (Gênesis 2:18).

Perceba o detalhe: não foi o homem quem reclamou de solidão primeiro. Foi o próprio Deus quem disse que não era bom. Isso muda tudo. Dentro do que acredito, a família, o casamento, a vida a dois não são apenas invenções humanas, mas fazem parte do projeto de Deus para a comunhão. Deus nos fez pro encontro, pra não andar sozinho. Quando esse desejo nasce no coração, não é a mente tagarelando. É algo mais fundo, algo que bate junto com a própria natureza de como fomos criados. 

Aqui, porém, vale um cuidado. O teólogo John Stott, que foi solteiro a vida inteira, costumava lembrar que casamento e solteirice são ambos bons aos olhos de Deus. A Bíblia não trata o casamento como única prova de que alguém está vivendo o propósito de Deus, nem a solteirice como sinal de que algo está faltando. O ponto de Gênesis não é que todo ser humano precisa se casar pra ser completo, mas que fomos criados para a comunhão, e essa comunhão se expressa de muitas formas. 

Eu acredito que o desejo de não seguir sozinho não é coincidência. Ele aponta para algo que está na própria estrutura da criação. Mas esse desejo não pode virar promessa automática. O fato de um ciclo novo bater à porta não significa que ele vai se realizar exatamente como imaginamos, no tempo que imaginamos. Às vezes a pessoa fecha um ciclo corretamente, se abre com fé, e ainda enfrenta espera. Isso não é fracasso. É parte do mistério de viver.

Mas aqui tá o ponto central: pra que esse ciclo novo aconteça, a gente precisa estar aberto e disponível. Disponível de verdade, não só dizendo que quer, mas de fato abrindo espaço na vida, no coração, na rotina. Às vezes a gente diz que quer, mas continua vivendo como se não quisesse, tudo fechado, tudo no automático. Estar disponível não significa fabricar uma oportunidade nem transformar a própria vida numa busca ansiosa. Significa não manter o coração organizado em torno de algo que já terminou.

Lembra da música de novo? "Anseio por um caminho limpo." Caminho limpo é coração aberto. É vida sem "esquema ou armação", sem tentar forçar as coisas, sem fingir que tá tudo bem quando por dentro a gente anseia por mais. É quando a gente reconhece que um ciclo já deu o que tinha que dar, e se dispõe, com humildade e sem pressa, ao próximo.

Eclesiastes já tinha avisado: tem tempo para todo propósito. O tempo de se construir, de se manter sozinho, de andar com as próprias pernas, cumpriu seu papel. Agora pode ser tempo de outro propósito. E quando a gente fecha o ciclo anterior com gratidão e se abre pro novo com fé, o resto Deus faz. Não no sentido de uma garantia automática de que um relacionamento vai surgir, mas no sentido de que a gente passa a viver com mais liberdade pra reconhecer as oportunidades que aparecerem, sem transformar nenhuma delas em promessa.

Porque no fim das contas, não é sobre a gente correr desesperado atrás. É sobre a gente estar pronto quando o caminho limpo se abrir. Talvez esse caminho não seja uma estrada que Deus abre de repente, mas a disposição de caminhar sem continuar preso ao que já terminou. E essa disposição, essa abertura, já é por si só o começo de um ciclo novo.

Vand’s.