A versão de “Oh Happy Day” apresentada em Mudança de Hábito 2 (Sister Act 2: Back in the Habit), de 1993, não é apenas uma das melhores já feitas. Na minha opinião, É A MELHOR DE TODAS.
E isso vai muito além da música em si.
A apresentação funciona tão bem porque carrega todo o peso da história construída pelo filme até aquele momento. Não é simplesmente um coral cantando bem. São jovens que, no começo, formavam uma turma desorganizada, cheia de conflitos, inseguranças e pouca perspectiva, mas que aos poucos encontram na música algo que talvez nem soubessem que estavam procurando: propósito, identidade, disciplina, amizade e confiança.
E “Oh Happy Day” é um dos momentos em que isso fica mais evidente.
A versão apresentada no filme contou com os arranjos de Mervyn Warren, um compositor, produtor musical, maestro, letrista, pianista e vocalista americano, vencedor de cinco Grammys e indicado outras dez vezes, e uma das grandes qualidades do trabalho está justamente em não complicar aquilo que não precisava ser complicado. A música começa de maneira relativamente simples, dando espaço para que as vozes sejam as grandes protagonistas.
Piano, uma voz conduzindo a melodia e o coral respondendo.
Aos poucos, porém, tudo vai crescendo. As vozes ocupam o espaço, a harmonia fica cada vez mais intensa e aquela apresentação escolar começa a ganhar uma dimensão muito maior.
E então chega ele, Ahmal, personagem interpretado por Ryan Toby.
Ryan tinha apenas 16 anos quando participou das gravações do filme. E, durante boa parte da história, seu personagem não parece ser aquele que vai protagonizar um dos momentos mais memoráveis da trilha sonora. Sua voz é extremamente aguda, quase frágil quando a ouvimos pela primeira vez, e nada prepara completamente o espectador para o que está por vir.
Até que ele começa a cantar.
De maneira completamente inesperada, ele entrega um dos trechos mais icônicos de toda a apresentação. Seu falsete inesperadamente surpreendente, carregado de técnica e emoção, transforma a canção em algo ainda mais especial, arrancando aplausos dentro e fora da tela. É o tipo de interpretação que arrepiou, emocionou e ficou marcada na memória de quem ouviu.
E, aparentemente, não foi só o público que teve essa reação.
Uma das curiosidades mais interessantes sobre a gravação da cena, segundo especulações, é que o arranjo vocal e, principalmente, esse agudo de Ryan teria sido mantido em segredo de parte do elenco, inclusive de Whoopi Goldberg.
Isso torna a cena ainda mais divertida de assistir.
Quando Ahmal solta a nota e Mary Clarence (Whoopi Goldberg) se vira rapidamente para olhar para ele com aquela expressão de surpresa, a reação de Whoopi não teria sido apenas atuação. Ela realmente teria sido pega de surpresa pelo que Ryan acabara de fazer. — (Ressaltando que essa parte é especulação e não um fato).
O solo não funciona como uma demonstração vazia de virtuosismo. Não parece que o filme parou apenas para mostrar que Ryan Toby sabia cantar — embora, naquele momento, ele deixe isso mais do que evidente.
Aquela voz faz sentido dentro de tudo o que estamos assistindo. O garoto aparentemente tímido encontra espaço para mostrar quem é. E talvez seja justamente por isso que aquela nota aguda seja tão marcante. Não é apenas uma nota difícil ou impressionante. É como se, naquele instante, seu personagem finalmente mostrasse que aquela voz que poderia parecer estranha, fina ou pequena, também era sua maior força.
Quando Ahmal se destaca, o coral inteiro cresce junto com ele. Os outros respondem, acompanham, vibram e sustentam aquele momento. A conquista individual não compete com a coletiva; ela faz parte dela.
Isso resume muito bem uma das mensagens mais bonitas de Mudança de Hábito 2: um bom grupo não apaga as diferenças das pessoas. Ele encontra um lugar para elas.
O garoto da “voz fraquinha” finalmente descobre a própria potência — e rouba a cena de maneira inesquecível.
É a mensagem de que “Jesus lavou nossos pecados” (como diz a canção) dita da forma mais grandiosa, incrível e verdadeira como realmente foi.
Por isso, acho muito bonito que o filme consiga apresentar a mensagem de “Oh Happy Day” de maneira tão grandiosa sem precisar transformar a cena em um sermão. A música faz isso sozinha. E a alegria está nos rostos, nas vozes, no coral e até na reação de quem está assistindo. Não é apenas uma apresentação, mas sim uma celebração.
Houve uma transformação! A mensagem da música e aquilo que acontece com os personagens acabam caminhando juntos.
É uma celebração da música, do talento, da descoberta, da amizade, da superação e, acima de tudo, da própria mensagem da canção.
E pensar que tudo isso acontece antes de “Joyful, joyful”, que ainda viria a ser o grande número final do filme, mostra a força musical de Mudança de Hábito 2.
Mais de três décadas depois, aquela cena continua funcionando.
Você pode saber exatamente quando o solo vai começar, saber quando Ryan vai subir o tom, estar esperando a famosa nota aguda e ter assistido àquela cena dezenas de vezes. Não importa. Quando chega... arrepia.
Pra mim, foi e continua sendo uma verdadeira obra-prima da música gospel no cinema.
Algumas performances ficam presas à época em que foram feitas. Outras envelhecem. Mas algumas atravessam gerações.
“Oh Happy Day”, em Mudança de Hábito 2, com certeza é uma dessas.
Vand’s.