Há um tempo venho refletindo sobre uma das frases mais conhecidas de Jesus:

"Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância." (João 10:10b)

Quanto mais penso nessas palavras e, principalmente, no contexto em que elas foram ditas, mais tenho convicção de que essa "vida em abundância" não tem nada a ver sobre ter uma vida boa aqui na terra.

Hoje em dia, é comum ouvirmos esse versículo sendo pregado, na minha opinião de forma equivocada, falando que João 10:10 é uma vida abundante aqui na terra, o que de certa forma é convidativo; porém, é um tipo de abundância corruptível que foge da proposta trazida por Jesus e isso acaba diminuindo a grandeza da promessa, fazendo com que nossos olhos fiquem presos apenas ao que é passageiro.

Quando lemos João 10 inteiro, percebemos que Jesus está falando sobre salvação. Ele se apresenta como o Bom Pastor, aquele que conhece as suas ovelhas, dá a vida por elas e as conduz para um lugar seguro. O contraste que Ele faz não é entre pobreza e riqueza, mas entre morte e vida. Entre o ladrão, que veio para matar, roubar e destruir, e Cristo, que veio para dar vida — uma vida que o pecado não pode destruir e que a morte não consegue interromper.

Por isso, acredito que a abundância prometida por Jesus vai muito além das coisas que podemos conquistar neste mundo. Ela não depende da conta bancária, do tamanho da casa, do carro que dirigimos ou da ausência de problemas. Tudo isso passa. Tudo isso fica. Tudo isso, um dia, vai deixar de existir.

Deus, é claro, cuida dos seus filhos. Ele conhece nossas necessidades e promete suprir aquilo de que realmente precisamos. A Bíblia deixa isso muito claro. Mas será que essa é toda a promessa do Evangelho? Será que Jesus entregou Sua vida na cruz apenas para que vivêssemos alguns anos aqui com mais conforto?

Se fosse assim, a esperança cristã terminaria no cemitério.

É justamente por isso que o apóstolo Paulo escreveu:

"Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens." (1 Coríntios 15:19)

Nossa esperança nunca esteve presa apenas ao presente. Ela sempre apontou para algo infinitamente maior: a eternidade com Cristo.

Gosto muito de uma frase de C. S. Lewis que resume bem essa verdade:

"Aqueles que mais fizeram por este mundo foram justamente os que mais pensaram no mundo por vir."

Essa frase nos lembra que quem vive olhando para a eternidade aprende a enxergar esta vida na perspectiva correta. As alegrias são recebidas com gratidão, mas sem idolatria. As perdas são enfrentadas com dor, mas sem desespero. Afinal, este mundo nunca foi o destino final do cristão.

Talvez um dos maiores problemas da nossa geração seja tentar transformar as promessas eternas de Deus em garantias temporárias. Queremos que a abundância signifique uma vida sem lutas, quando Jesus nunca prometeu isso. Pelo contrário, Ele disse: "No mundo vocês terão aflições; mas tenham coragem! Eu venci o mundo." (João 16:33) A diferença é que, para quem está em Cristo, a aflição nunca terá a palavra final.

Nem todo cristão terá uma vida abundante segundo os padrões deste mundo. Muitos homens e mulheres fiéis atravessaram doenças, perseguições, perdas e privações. Os próprios apóstolos viveram assim. Eles não acumularam riquezas nem viveram cercados de conforto, mas ninguém pode dizer que lhes faltou a vida abundante prometida por Jesus.

Sabe por quê?

Porque essa abundância nunca foi medida pelo que eles possuíam, mas por Aquele a quem pertenciam.

A verdadeira abundância começa quando somos reconciliados com Deus. Ela se manifesta na paz que o mundo não consegue oferecer, no perdão que nenhum dinheiro pode comprar e na esperança que permanece firme mesmo quando tudo ao nosso redor parece desmoronar. Mas ela ainda não chegou ao seu ponto máximo.

A plenitude dessa vida será experimentada quando Cristo nos chamar para estar definitivamente com Ele. Será ali que toda lágrima será enxugada, toda dor terá fim e viveremos, sem limitações, aquilo que hoje experimentamos apenas pela fé. 

Enquanto esse dia não chega, somos chamados a viver uma vida de santidade, fidelidade e devoção ao Senhor. Não para conquistar essa promessa, mas porque já fomos alcançados por ela.

No fim das contas, talvez "vida em abundância" não signifique viver mais, ter mais ou conquistar mais. Talvez signifique algo muito maior: ter Cristo.

E quem tem Cristo já possui a única riqueza que nem a morte consegue tirar. A abundância que Jesus prometeu não está limitada aos poucos anos que passamos nesta terra. Ela está guardada na eternidade, onde finalmente viveremos, em sua plenitude, a vida que o Bom Pastor conquistou para as suas ovelhas.

Vand’s.