
“O homem orgulhoso sofre, seus dias têm sabor de morte. Caminha sem saber a direção, fria sombra se esconde no escuro.”
O trecho acima, assim como o título deste texto, vem da música “Orgulho”, de Brother Simion, lançada em 1994. E, mesmo depois de tantos anos, sua mensagem continua extremamente atual.
O orgulho é perigoso justamente porque quase nunca se apresenta como orgulho. Dificilmente alguém acorda pela manhã e admite: “Estou sendo orgulhoso”. Ele costuma vestir outras roupas. Às vezes, aparece disfarçado de excesso de zelo, autoridade, firmeza, preocupação, cuidado ou até mesmo de espiritualidade.
E qualquer um de nós está sujeito a isso.
Talvez esse seja um dos maiores perigos do orgulho: ele consegue convencer a pessoa de que aquilo que está fazendo é certo. O orgulhoso dificilmente percebe sua própria condição, porque encontra justificativas para suas atitudes. Ele acredita estar defendendo alguma coisa, protegendo alguém, preservando princípios ou lutando por uma causa justa. E, dentro da igreja, isso pode ser ainda mais delicado, porque existe o risco de alguém usar o nome de Deus para justificar atitudes que, no fundo, nasceram do próprio coração.
É possível começar querendo servir e, aos poucos, passar a querer controlar.
É possível começar querendo cuidar e terminar querendo possuir.
É possível defender a autoridade pastoral e, sem perceber, transformar autoridade em domínio.
A Bíblia, obviamente, reconhece a importância da liderança. Pastores são chamados para cuidar, ensinar, aconselhar, corrigir e proteger o rebanho. Isso inclui alertar a igreja contra falsos ensinos e doutrinas que se afastam do Evangelho. Portanto, nem toda orientação ou correção de um líder deve ser interpretada como controle. Existe autoridade legítima, existe disciplina bíblica e existe responsabilidade pastoral.
O problema começa quando o cuidado deixa de apontar para Cristo e começa a criar dependência em relação ao próprio líder.
Um exemplo disso acontece quando pastores proíbem seus membros de visitar outras igrejas, participar de eventos cristãos ou ter comunhão com irmãos de outras comunidades de fé simplesmente porque essas pessoas não pertencem (mais) ao seu ministério. É claro que existem ambientes e ensinos dos quais um pastor responsável deve alertar sua igreja. Isso faz parte do cuidado pastoral.
Mas quando a motivação passa a ser o medo de perder pessoas, talvez já não estejamos falando apenas de zelo espiritual.
Talvez estejamos falando de insegurança.E, em alguns casos, de orgulho.
Se Cristo é o cabeça da Igreja, por que tanto medo?
A Igreja não pertence ao pastor. As pessoas não pertencem ao pastor. O ministério não é propriedade de quem o lidera. Pastores são servos chamados para cuidar de algo que continua pertencendo a Cristo.
Quem está seguro no chamado que recebeu não precisa construir muros para manter pessoas por perto. Não precisa transformar irmãos de outras igrejas em concorrentes nem tratar outras comunidades cristãs como ameaças. O Reino de Deus é muito maior do que qualquer placa de igreja, ministério ou denominação.
Uma igreja local é parte do Corpo de Cristo, não o Corpo de Cristo inteiro.
E talvez seja exatamente aí que o orgulho religioso se torne tão perigoso: quando começamos a confundir aquilo que Deus nos confiou com algo que nos pertence. O ministério deixa de ser serviço e passa a ser território. Pessoas deixam de ser irmãos e passam a ser números. Outras igrejas deixam de ser parceiras no Evangelho e passam a ser vistas como concorrentes.
Sem perceber, a pergunta deixa de ser “como essas pessoas podem crescer em Cristo?” e passa a ser “como faço para que elas não saiam daqui?”.
São perguntas parecidas apenas na aparência. No coração, são completamente diferentes.
É justamente por isso que Jeremias afirma:
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” - Jeremias 17:9
Esse texto deveria produzir em nós muito mais cautela antes de apontarmos o dedo para alguém, porque ele não fala apenas sobre o coração dos outros. Fala sobre o nosso.
O meu coração pode me enganar. O seu também.
O coração de quem está sentado no banco da igreja pode se encher de orgulho, assim como o coração de quem está atrás do púlpito. Ninguém está imune.
Por isso, quando líderes precisam controlar pessoas para mantê-las por perto, talvez o problema não esteja apenas nas pessoas que desejam sair, visitar outra comunidade ou participar de um evento evento. Talvez seja necessário olhar também para o próprio coração e perguntar: por que isso me incomoda tanto?
É zelo pela verdade ou medo de perder espaço?É cuidado pastoral ou necessidade de controle?É preocupação com a fé daquela pessoa ou receio de que ela descubra que existe vida cristã além das paredes da minha igreja?
São perguntas desconfortáveis. Mas perguntas desconfortáveis também podem ser instrumentos de Deus para revelar aquilo que preferimos esconder.
E aqui está outro perigo do orgulho: ele não gosta de ser confrontado.
Quando alguém questiona uma decisão, o orgulho interpreta como rebeldia. Quando alguém discorda, interpreta como desrespeito. Quando alguém decide partir, interpreta como ingratidão. Aos poucos, a liderança deixa de servir às pessoas e começa a exigir que as pessoas sirvam à manutenção da própria autoridade.
Mas Jesus apresentou outro modelo.
No Reino de Deus, autoridade não deveria significar domínio, mas serviço. Liderar não é possuir pessoas; é cuidar delas. Não é criar dependência do líder, mas ajudar pessoas a dependerem cada vez mais de Cristo.
João Batista compreendeu isso de maneira extraordinária quando declarou a respeito de Jesus: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30).
Talvez essa seja uma das frases mais difíceis para o orgulho aceitar.
Porque o orgulho quer crescer. Quer reconhecimento, influência, quer ter razão, ser necessário, ser lembrado, quer que as pessoas dependam dele.
O Evangelho, porém, nos chama para o caminho contrário. Cristo cresce, nós diminuímos. Cristo aparece, nós servimos. Cristo recebe a glória, nós reconhecemos que somos apenas instrumentos.
Por isso, esse assunto não deveria servir apenas para identificarmos líderes controladores. Seria muito fácil terminar esta reflexão pensando: “Conheço alguém exatamente assim”.
Talvez o exercício mais importante seja outro: Existe algo disso em mim?
Porque a semente do orgulho pode nascer em qualquer coração.
Pode estar no pastor que controla a igreja, mas também no membro que nunca aceita ser corrigido. Pode estar no líder que precisa ter a última palavra, mas também naquele que transforma qualquer discordância em motivo para abandonar pessoas. Pode estar em quem deseja aparecer no púlpito, mas também em quem deseja reconhecimento longe dele.
O orgulho muda de roupa conforme a pessoa, mas continua sendo orgulho.
E, no fim, ele sempre produz o contrário daquilo que promete.
Promete segurança, mas gera medo.
Promete proteção, mas cria isolamento.
Promete respeito, mas exige submissão.
Promete força, mas revela fragilidade.
Promete grandeza, mas nos torna pequenos.
É uma semente de veneno. E, se não for identificada enquanto ainda é semente, suas raízes podem alcançar nossos relacionamentos, nossa família, nossa igreja e até nossa maneira de enxergar Deus.
Por isso precisamos constantemente permitir que o Senhor examine nossas motivações. Não apenas aquilo que fazemos, mas por que fazemos. Afinal, duas pessoas podem realizar exatamente a mesma ação por razões completamente diferentes.
Podemos corrigir alguém por amor ou para mostrar autoridade.
Podemos proteger alguém por cuidado ou para mantê-lo sob controle.
Podemos servir para glorificar a Deus ou para sermos reconhecidos.
É no coração que essa diferença começa.
Tudo o que nasce de um coração dominado pelo orgulho inevitavelmente nos afasta da vida que Cristo veio oferecer. Por isso, talvez a melhor maneira de terminar esta reflexão não seja apontando para os outros, mas fazendo nossa a oração do salmista:
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” - Salmo 139:23–24
Antes de pedir que Deus revele o orgulho de alguém, talvez seja melhor pedir que Ele revele o nosso.
Porque o orgulho dos outros pode nos incomodar.
Mas é o nosso que pode nos destruir.
Vand's.